
A incrível transformação de Raabe, de prostituta cananeia a uma figura proeminente na linhagem do Rei Davi e de Jesus Cristo, é uma narrativa que ressoa não apenas na tradição cristã, mas também possui significado no pensamento judaico. A história da fé e redenção de Raabe é um testemunho da universalidade do espírito humano e do poder transcendente da fé, reconhecido tanto no cristianismo quanto no judaísmo.
De Prostituta a Heroína: A Notável Transformação de Raabe
Na tradição judaica, a história de Raabe destaca o conceito de teshuvá, ou arrependimento, enfatizando que o passado de alguém não necessariamente define o seu futuro. Apesar da vida anterior de Raabe como prostituta, sua fé no Deus de Israel permitiu que ela mudasse seu destino, abrindo caminho para sua integração na comunidade do povo de Deus. A ideia de redenção e perdão ressoa profundamente no pensamento judaico e é refletida em passagens como Ezequiel 18:21-22, que enfatiza que os ímpios podem abandonar seus caminhos e viver.
Raabe na Época da Conquista Israelita
De uma perspectiva judaica, o papel de Raabe na proteção dos espiões israelitas assume uma importância adicional. O Talmude, um texto fundamental na tradição judaica, faz referências a Raabe e seu papel nos eventos de Jericó. No tratado talmúdico Avodah Zarah (31b), as ações de Raabe são elogiadas, destacando sua fé e compromisso com o Deus de Israel. O Talmude enfatiza ainda a importância de abrigar aqueles em necessidade, alinhando-se com o princípio de hachnasat orchim, ou recepção de hóspedes, um princípio central na hospitalidade e ética judaica.
O Papel de Raabe na Conquista Israelita
A coragem e fé de Raabe, como retratadas no Talmude, exemplificam a ideia de que as ações individuais podem ter um impacto profundo no destino de uma nação. Sua decisão de proteger os espiões não apenas salvou sua própria família, mas também contribuiu para o sucesso final da conquista israelita. Esse tema de indivíduos moldando a história por meio de suas escolhas é um motivo recorrente na história e teologia judaica.
A Queda Milagrosa de Jericó
A tradição talmúdica também considera Raabe com grande estima por seu entendimento do poder de Deus, uma percepção que a levou a ajudar os espiões israelitas. Nesse sentido, a fé de Raabe é vista como um modelo de justos gentios (conhecidos como “Justos entre as Nações” na tradição judaica), indivíduos de origens não judaicas que agiram virtuosamente e de acordo com a vontade de Deus. Sua fé, como retratada no Talmude, se alinha com a crença judaica na potencialidade da retidão entre todos os povos.
Redenção e Legado de Raabe
Sob a perspectiva judaica, a inclusão de Raabe na linhagem do Rei Davi e, consequentemente, de Jesus Cristo, é um lembrete de que a retidão transcende barreiras religiosas. O Talmude, ao discutir a conexão de Raabe com Davi, destaca a noção de que atos de retidão e fé não são limitados pela etnia ou origem.
A jornada de Raabe, como vista tanto nas lentes cristãs quanto judaicas, enfatiza o poder transformador da fé e a possibilidade de redenção, não importando o passado de alguém. Ela serve como um testemunho universal da capacidade humana de mudança e crescimento, encorajando a todos a reconhecer o potencial para a retidão e fé em nossas vidas, e o poder de atos de bondade, não importando quem somos ou de onde viemos. No grande tapete da trama de Deus, a história de Raabe nos lembra que fé e boas ações não conhecem fronteiras, refletindo uma compreensão compartilhada tanto nas tradições cristãs quanto judaicas do impacto duradouro da retidão e fé.
Raabe e a linhagem de Jesus
A linhagem de Jesus, começando por Raabe, é tradicionalmente traçada pelo Evangelho de Mateus no Novo Testamento. A inclusão de Raabe na linhagem de Jesus é um testemunho do poder redentor da fé e demonstra que pessoas de origens diversas podem fazer parte do plano de Deus. Aqui está a linhagem conforme o Evangelho de Mateus:
- Raabe: Raabe, a prostituta cananeia de Jericó que protegeu os espiões israelitas (Mateus 1:5).
- Salmão: Raabe se casou com Salmão, um dos espiões (Mateus 1:5).
- Boaz: Salmão e Raabe tiveram um filho chamado Boaz (Mateus 1:5).
- Rute: Boaz se casou com Rute, que era uma mulher moabita (Mateus 1:5).
- Obede: Boaz e Rute tiveram um filho chamado Obede (Mateus 1:5).
- Jesse: Obede foi o pai de Jesse (Mateus 1:5).
- Davi: Jesse foi o pai de Davi, que se tornou o renomado Rei de Israel (Mateus 1:6).
A partir de Davi, a linhagem continua por meio de seus descendentes para finalmente chegar a José, o marido de Maria, a mãe de Jesus, de acordo com o Evangelho de Mateus. É importante notar que esta linhagem é apresentada em um contexto simbólico e teológico e deve ser vista como uma representação da linhagem real e messiânica de Jesus, em vez de um registro genealógico estrito.
Teshuvá ou arrependimento
Teshuvá, ou arrependimento, é um conceito central na teologia e prática judaica. Refere-se ao processo de afastar-se do comportamento pecaminoso, sentir sinceramente remorso por suas ações e fazer um esforço genuíno para mudar, buscando o perdão de Deus. A ideia de teshuvá está profundamente enraizada na Bíblia Hebraica (Antigo Testamento), e existem vários exemplos bíblicos que ilustram esse conceito.
Um exemplo notável é a história do Rei Davi, uma figura venerada na Bíblia Hebraica, que cometeu um pecado grave, mas demonstrou teshuvá profundo. No Livro de 2 Samuel, capítulos 11 e 12, a narrativa se desenrola:
- Pecado de Davi: O Rei Davi, enquanto caminhava no telhado de seu palácio, viu Bate-Seba, a esposa de Urias, o heteu, tomando banho. O desejo de Davi por Bate-Seba levou a um relacionamento adúltero com ela, que ficou grávida. Na tentativa de encobrir seu pecado, Davi orquestrou o retorno de Urias do campo de batalha para passar tempo com sua esposa, esperando que Urias acreditasse que era o pai da criança.
- Repreensão do Profeta Natã: O profeta Natã confrontou Davi, contando-lhe uma parábola sobre um homem rico que tomou o único cordeiro de um homem pobre, levando à condenação do homem rico. Depois, Natã revelou que Davi era o homem rico na parábola, expondo seu pecado. A resposta de Davi à repreensão de Natã exemplifica o início do seu teshuvá: ele admitiu seu erro e disse: “Pequei contra o Senhor” (2 Samuel 12:13).
- Arrependimento Genuíno: O teshuvá de Davi foi além do mero reconhecimento de seu pecado. Ele compôs o Salmo 51, uma poderosa expressão de remorso e arrependimento, na qual implorou a Deus por perdão e por um espírito renovado. Este salmo reflete a profundidade de sua contrição e seu desejo sincero de se afastar do pecado.
- Consequências e Perdão: Davi enfrentou consequências por suas ações, incluindo a morte da criança nascida de Bate-Seba e uma série de conflitos em sua família. No entanto, Deus perdoou Davi e permitiu que ele continuasse como rei.
A história do teshuvá de Davi serve como um exemplo bíblico de arrependimento. Ela demonstra que o arrependimento genuíno envolve não apenas admitir o pecado, mas também ter um coração contrito, um compromisso de mudança e um apelo ao perdão de Deus. Na tradição judaica, a experiência de Davi é um lembrete de que o teshuvá está ao alcance de todos que a buscam sinceramente, reforçando a ideia de que, não importa quão graves sejam os pecados de alguém, a reconciliação com Deus é possível por meio de um arrependimento genuíno
SALMO 51
¹ Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; apaga as minhas transgressões, segundo a multidão das tuas misericórdias.
² Lava-me completamente da minha iniqüidade, e purifica-me do meu pecado.
³ Porque eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim.
⁴ Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mal à tua vista, para que sejas justificado quando falares, e puro quando julgares.
⁵ Eis que em iniqüidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe.
⁶ Eis que amas a verdade no íntimo, e no oculto me fazes conhecer a sabedoria.
⁷ Purifica-me com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e ficarei mais branco do que a neve.
⁸ Faze-me ouvir júbilo e alegria, para que gozem os ossos que tu quebraste.
⁹ Esconde a tua face dos meus pecados, e apaga todas as minhas iniqüidades.
¹⁰ Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto.
¹¹ Não me lances fora da tua presença, e não retires de mim o teu Espírito Santo.
¹² Torna a dar-me a alegria da tua salvação, e sustém-me com um espírito voluntário.
¹³ Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos, e os pecadores a ti se converterão.
¹⁴ Livra-me dos crimes de sangue, ó Deus, Deus da minha salvação, e a minha língua louvará altamente a tua justiça.
¹⁵ Abre, Senhor, os meus lábios, e a minha boca entoará o teu louvor.
¹⁶ Pois não desejas sacrifícios, senão eu os daria; tu não te deleitas em holocaustos.
¹⁷ Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus.
¹⁸ Faze o bem a Sião, segundo a tua boa vontade; edifica os muros de Jerusalém.
¹⁹ Então te agradarás dos sacrifícios de justiça, dos holocaustos e das ofertas queimadas; então se oferecerão novilhos sobre o teu altar.
Rei Davi
Tehillim 51
Orthodox Jewish Bible
51 (For the one directing. Mizmor Dovid. When Natan HaNavi confronted him after he went into Bat- Sheva—2Sm. 11:2) Have mercy upon me, O Elohim, according to Thy chesed; according unto the multitude of Thy rachamim blot out my peysha’im (transgressions, rebellions).
2 (4) Wash me thoroughly from mine avon (iniquity), and cleanse me from my chattat (sin).
3 (5) For I acknowledge my peysha’im (transgressions, rebellions); and my chattat (sin) is ever before me.
4 (6) Against Thee, Thee only, have I sinned, and done the rah in Thy sight; that Thou mightest be found just when Thou speakest, and be blameless when Thou judgest.
5 (7) Surely, I was brought forth in avon; and in chet did immi conceive me [i.e., I was a sinner from conception].
6 (8) Surely Thou desirest emes in the inward parts; and in the inmost place Thou shalt make me to know chochmah.
7 (9) Purge me with ezov (hyssop), and I shall be tahor; wash me, and I shall be whiter than sheleg (snow).
8 (10) Make me to hear sasson and simchah; that the atzmot which Thou hast broken may rejoice.
9 (11) Hide Thy face from my chatta’im, and blot out all mine avonot.
10 (12) Create in me a lev tahor, O Elohim; and renew a ruach nekhon (steadfast spirit [i.e., regeneration Ezek 36:26; Yn 3:3,6]) within me.
11 (13) Cast me not away from Thy presence; and take not Thy Ruach Hakodesh from me.
12 (14) Restore unto me the sasson of Thy salvation; and uphold me with a ruach nedivah (a willing spirit; see Jer 31:31-34).
13 (15) Then will I teach poshe’im (transgressors) Thy drakhim; and chatta’im (sinners) shall be converted [have a spiritual turnaround; see Isa 6:10] unto Thee.
14 (16) Save me from damim (bloodguiltiness), O Elohim, Thou Elohei Teshuati; and my leshon shall sing aloud of Thy tzedakah.
15 (17) Adonoi, open Thou my lips; and my mouth shall show forth Thy tehillah (praise).
16 (18) For Thou desirest not zevach (sacrifice); else would I give it; Thou delightest not in olah (burnt offering).
17 (19) The zivkhei Elohim are a ruach nishbarah (broken spirit); a broken and contrite lev, O Elohim, Thou wilt not despise.
18 (20) Do good in Thy good pleasure unto Tziyon; build Thou the chomot Yerushalayim.
19 (21) Then shalt Thou be pleased with zivkhei tzedek (true sacrifices, sacrifices of righteousness), with olah (burnt offering) and whole burnt offering; then shall they offer parim (bulls) upon Thine Mizbe’ach. [T.N. This Psalm, Ps 51, teaches the doctrine of Chet Kadmon from which comes the seminal corrupting human condition necessitating hitkhadshut for all fallen Bnei Adam]
Kleber Siqueira – 22/10/2023
